Gicartes: «Criar o cartaz do Luanda Cartoon é um dos maiores feitos da minha carreira»
- OLINDOMAR ESTÚDIO

- 30 de ago.
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Artista e autor de Banda Desenhada, José T. Francisco “Gicartes” é um dos nomes ligados à nova geração de criadores angolanos que têm dedicado parte significativa do seu percurso à ilustração, ao cartoon e à formação artística. Com uma longa ligação ao Estúdio Olindomar e ao Festival Luanda Cartoon, Gicartes assina, juntamente com João Van-Dúnem, o desenho que deu origem ao cartaz oficial da 22.ª edição do Festival Luanda Cartoon, realizada sob o tema “As Mulheres e a BD”.
Nesta entrevista, o artista fala sobre o seu percurso, a influência dos seus mestres, os bastidores da criação do cartaz, os desafios da Banda Desenhada em Angola e a importância de formar uma nova geração de autores.

Gicartes, como começou a sua ligação com o desenho e a Banda Desenhada? Em que momento percebeu que queria seguir este caminho artisticamente?
Não me lembro muito bem se aconteceu de forma espontânea ou por intermédio de alguém. Era criança e acredito que teria uns seis ou sete anos. Percebi muito cedo que queria seguir este caminho, talvez aos nove ou dez anos. Nessa altura, já tinha a certeza de que pretendia seguir uma carreira ligada ao desenho.
A sua formação em desenho e Banda Desenhada passou pelo Estúdio Olindomar, onde teve contacto com vários professores e artistas. Que importância teve essa formação para a construção da sua identidade artística?
Entre todas as formações que tive para me tornar o artista que sou hoje, a formação no Estúdio Olindomar foi, realmente, a mais importante. Tudo o que aprendemos em qualquer lugar é importante, mas costumo dizer que os ingredientes só fazem sentido quando temos o alimento principal. No meu caso, o Estúdio Olindomar deu-me esse alimento principal.
Entre os nomes que marcaram a sua formação estão Altino Chindele, João Van-Dúnem, Júlio Pinto, Junilson Faria, Lindomar e Olímpio de Sousa. Que ensinamentos desses mestres continuam presentes no seu trabalho?
Nas minhas obras encontra-se um pouco de todos eles, porque fazem parte da minha construção enquanto artista. Aprendi muito com todos, embora, naturalmente, tenha aprendido mais com uns do que com outros. Se analisarem minuciosamente os meus trabalhos, principalmente os mais recentes, poderão encontrar influências de todos eles, desde os meus professores aos meus mestres.
Nesta 22.ª edição do Festival Luanda Cartoon, é, juntamente com João Van-Dúnem, autor do desenho que deu origem ao cartaz oficial. Como surgiu o convite e qual foi a sua primeira reação?
Para um cartunista angolano, desenhar o cartaz do maior festival de Banda Desenhada, cartoon e animação do país é um dos maiores privilégios. Quando o professor João Van-Dúnem me convidou para participar, aceitei imediatamente. Para mim, foi uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade.
Como foi trabalhar em parceria com João Van-Dúnem? Como dividiram as diferentes etapas do processo criativo?
Não foi a primeira vez que trabalhámos juntos. Trabalho com o professor João Van-Dúnem há mais de 15 anos e sempre tivemos uma boa relação profissional. Foi, portanto, mais uma das muitas vezes em que colaborámos. É sempre muito bom trabalhar com ele, porque é um mestre com uma vasta experiência na área.
Quanto à divisão do trabalho, ele esteve mais ligado aos esboços e eu à finalização do desenho. Depois surgiu uma terceira etapa, para a qual convidámos Edson Rafael. Partilhámos o trabalho com ele e ficou responsável pela pintura.



O tema desta edição é “As Mulheres e a BD”. Como interpretaram o tema e de que maneira procuraram representá-lo visualmente no cartaz?
No princípio, foi bastante difícil ajustar as ideias. Tivemos várias propostas que acabaram por não avançar. Até que o nosso mestre Olímpio de Sousa nos ajudou com uma ideia que todos considerámos muito boa: colocar adolescentes diante do Monumento às Heroínas Angolanas. A partir daí conseguimos desenvolver a composição que deu origem ao cartaz.
O cartaz apresenta vários elementos simbólicos ligados às mulheres, à juventude, ao desenho e à cultura angolana. Que mensagem principal pretendem transmitir?
É uma composição aberta a diferentes interpretações. Não foi concebida para transmitir apenas uma mensagem. Tem muito a ver com as nossas guerreiras, com as mulheres de diferentes gerações e com aquilo que representam.
A arte também depende muito de quem está diante dela e da forma como cada pessoa a interpreta. Por isso, quisemos deixar espaço para que o público pudesse construir a sua própria leitura.
Que significado tem a presença do Monumento às Heroínas Angolanas? Que relação procuraram estabelecer entre essa referência histórica e as mulheres na Banda Desenhada?
A maior relevância do monumento está na representação da resistência demonstrada pelas nossas heroínas no passado. Enquanto cartunistas, quisemos estabelecer uma relação com as mulheres que fazem Banda Desenhada actualmente.
Ainda são poucas, mas acreditamos que, se tiverem a mesma determinação e capacidade de resistência das nossas heroínas, poderão crescer em número e, futuramente, formar uma verdadeira legião de mulheres angolanas na Banda Desenhada.
Na parte inferior da composição aparecem crianças a desenhar. O que representa essa escolha?
As crianças representam o novo, o princípio, o começo de alguma coisa. Quando começamos cedo, temos maiores probabilidades de desenvolver capacidades e alcançar bons resultados.
Por isso colocámos crianças junto ao monumento. Elas representam uma iniciativa, um começo e, sobretudo, a continuidade. São também uma forma de expressar a esperança no futuro da Banda Desenhada angolana.
Qual foi o maior desafio técnico ou artístico durante a criação do desenho?
Para mim, o maior desafio foi encontrar disposição para recomeçar sempre que uma ideia era reprovada. Era difícil trabalhar intensamente numa proposta e, depois, perceber que teríamos de voltar ao princípio.
Cada reprovação parecia retirar um pouco da nossa energia. Ter de recuperar essa disposição e continuar a criar foi, para mim, um dos grandes desafios deste processo.
O cartaz é a primeira imagem que muitas pessoas têm de uma edição do festival. Sentiu uma responsabilidade especial por estar a criar a identidade visual de um evento com mais de duas décadas de história?
É sempre uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, algo que nos deixa maravilhados. Para alguém que leva o cartoon a sério e procura construir uma carreira como cartunista, receber uma responsabilidade desta dimensão representa também uma grande aprovação do trabalho que vem sendo desenvolvido.
Além de autor do cartaz, integra a organização do Luanda Cartoon e participa regularmente no festival. Como avalia a evolução do evento ao longo dos anos?
Fazendo parte da organização e sendo também artista, posso dizer que o festival está num bom caminho. É uma grande exposição e tem contribuído para promover muitos artistas.
Ao mesmo tempo, já são visíveis as preocupações de vários criadores que começam a pedir mais do festival. Os artistas também querem obter algum retorno financeiro pelo trabalho, pela dedicação e pelas obras que produzem.
Enquanto organização, temos conseguido fazer boas apresentações e organizar o evento, mas acredito que precisamos massificar aquilo que já fazemos. A divulgação nos meios de comunicação ainda pode crescer bastante. Não considero, porém, que isso seja responsabilidade exclusiva do festival, porque também está relacionado com o próprio desenvolvimento do sector cultural no país.
Precisamos igualmente de trabalhar mais as vendas, a divulgação das obras disponíveis para aquisição, a animação e as actividades de formação do público sobre a importância deste trabalho artístico.
O que representa pessoalmente ver um trabalho da sua autoria tornar-se a imagem oficial da 22.ª edição do Luanda Cartoon?
É um dos maiores feitos da minha carreira como cartunista. Sei que é também o sonho de muitos artistas e, por isso, considero que esta oportunidade dá maior visibilidade e credibilidade ao meu trabalho.
O Luanda Cartoon é o maior evento dedicado ao cartoon e à Banda Desenhada no nosso país. Ver um trabalho meu associado à imagem oficial desta edição é extremamente satisfatório.
Ao longo da sua carreira participou em projectos de ilustração, animação, exposições e formação artística. De que forma essas experiências influenciam a sua maneira de contar histórias através da imagem?
Todas essas experiências proporcionaram-me um vasto conjunto de conhecimentos que me ajudam diariamente no meu trabalho. Hoje sinto-me mais preparado para elaborar, dirigir, ensinar e executar diferentes projectos.
Cada experiência acrescenta alguma coisa e ajuda-me a encontrar melhores respostas no momento de realizar um trabalho.
Também possui experiência como professor de desenho. O que procura transmitir aos jovens quando ensina desenho e Banda Desenhada?
Primeiro, procuro mostrar-lhes que esta é uma grande arte e que, através dela, podem transformar não apenas as suas próprias vidas, mas também contribuir para transformar a vida das pessoas à sua volta.
A Banda Desenhada e o desenho são importantes ferramentas de comunicação. Através deles podemos exprimir sentimentos, ideias e transmitir mensagens.
Também procuro ensinar que não precisam de ser melhores do que ninguém para exercerem o papel de cartunistas. Precisam, acima de tudo, de trabalhar, estudar e compreender que esta é uma profissão como qualquer outra e que exige dedicação.
Já produziu várias obras de Banda Desenhada, entre elas Os Mais Xegados, O Azar do Salomão, O Arrependimento do Salomão, Makas, Porquê Estudar? e Eu Sou um Bom Menino. Existe algum tema ou preocupação comum que atravesse essas histórias?
Nas minhas histórias procuro, acima de tudo, divertir as pessoas, utilizando uma técnica muito conhecida no universo pedagógico: a ludoeducação, que procura juntar brincadeira e aprendizagem.
Através dessa abordagem, trabalho diferentes temas, procurando apresentá-los de uma forma divertida e acessível aos leitores. São, muitas vezes, temas sociais e educativos dirigidos principalmente às crianças e aos adolescentes.

Considera que a Banda Desenhada pode ser, além de entretenimento, uma importante ferramenta de educação e transformação social?
Não é apenas uma ferramenta; considero-a uma das grandes ferramentas de educação e transformação social, desde que seja bem utilizada.
A Banda Desenhada possui uma enorme capacidade de motivação, porque permite trabalhar com toda a criatividade proporcionada pelo desenho. Ao mesmo tempo, pode transportar conteúdos de diferentes áreas do conhecimento, experiências, imaginação, sonhos e muitas outras dimensões da vida.
Como Gestor Executivo da área Editorial e de Banda Desenhada do Estúdio Olindomar, acompanha também o desenvolvimento de novos artistas. Como vê actualmente a nova geração de autores angolanos?
É sempre muito bom ver nascer novos artistas. Para quem dirige uma equipa ou trabalha na formação artística, é uma das maiores satisfações.
Quem possui mais experiência deve ter vontade de transmitir aquilo que sabe aos outros. Dessa forma poderemos construir artistas mais sólidos, tanto no comportamento profissional como no desenvolvimento artístico.
Que dificuldades ainda precisam de ser ultrapassadas para que os autores angolanos consigam publicar, divulgar e comercializar regularmente as suas obras?
Para conseguirmos maior regularidade na publicação das obras dos autores angolanos é necessário mais do que organização e capacidade individual. Já temos muitos bons autores que, mesmo sem grandes apoios, continuam determinados a trabalhar.
Na minha opinião, o país ainda carece de entidades e estruturas capazes de apoiar esses processos. Também precisamos de políticas que facilitem o trabalho conjunto entre artistas, gráficas, editoras, vendedores e distribuidores.
Precisamos de melhorar a organização, as políticas de venda e os sistemas de distribuição, principalmente no que diz respeito às editoras. É necessário compromisso entre todas as partes. Acredito, porém, que tudo é possível quando temos as equipas certas e conseguimos estabelecer um diálogo adequado.
Depois de tantos anos ligado ao Luanda Cartoon, qual considera ser o contributo do festival para a afirmação da Banda Desenhada, do cartoon, da ilustração e da animação em Angola?
O Luanda Cartoon tem dado um grande contributo para a afirmação da Banda Desenhada, do cartoon, da ilustração e também da animação em Angola. É através do festival que muitos artistas conseguem perceber e valorizar o sentido do trabalho que desenvolvem.
Um festival desta dimensão dá visibilidade às nossas obras. Através dele conseguimos apresentar fisicamente os nossos trabalhos a um público amplo, algo que exige o esforço de uma equipa grande e sólida.
O festival também motiva os futuros artistas. Uma criança ou um jovem pode visitar uma exposição, olhar para os trabalhos apresentados e começar a sonhar com a possibilidade de, um dia, também estar ali.
Esta edição coloca as mulheres no centro da programação. Como avalia a presença e o crescimento das mulheres na Banda Desenhada angolana?
Ainda temos um longo caminho a percorrer. O importante é que já temos mulheres dispostas a fazer este percurso. São poucas, é verdade, mas já representam alguma coisa.
Também é possível observar um número considerável de meninas interessadas nesta área, embora muitas ainda sejam menores de idade. É justamente aí que vejo uma nova luz e uma esperança para o futuro.
O festival pode funcionar como um canal para iluminar o caminho dessas futuras artistas e mostrar-lhes que existe espaço para participarem e desenvolverem o seu trabalho.
Que conselho daria a uma criança ou jovem angolano que visita uma exposição do Luanda Cartoon, olha para os desenhos e pensa: “Eu também quero fazer Banda Desenhada”?
Diria para seguir em frente. Hoje existe uma grande diversidade de trabalhos e há espaço para novos artistas. Com dedicação, estudo e treino é possível alcançar bons resultados.
Também aconselharia os jovens a procurarem outras formações que complementem a sua arte, porque a Banda Desenhada não é apenas ilustração. É também o conteúdo que essa ilustração transporta. Quanto maior for o conhecimento do artista, maior será a sua capacidade de comunicar através do desenho.
Depois da criação do cartaz da 22.ª edição, quais são os próximos projectos de Gicartes? Há novas Bandas Desenhadas ou ilustrações que o público poderá conhecer em breve?
Claro que existem novos projectos. Faz parte da vida de um artista continuar a criar. Mas, depois de algum tempo nesta área, aprendemos também que é importante acautelar cada passo e revelar os projectos no momento certo.
O trabalho não pode parar. Pode, em determinados momentos, avançar num ritmo mais lento, mas não devemos deixar de produzir. Tenho, sim, novos projectos, alguns já realizados e outros ainda em desenvolvimento.
Para terminar, que mensagem gostaria de deixar ao público que está a visitar as exposições e a acompanhar a 22.ª edição do Festival Luanda Cartoon?
A mensagem é simples: desfrutem do festival. Aproveitem a sensibilidade presente em cada detalhe, desde a organização, passando por cada obra exposta, até aos próprios espaços que recebem as exposições.
Acima de tudo, observem os trabalhos, conheçam os artistas e aproveitem aquilo que o Luanda Cartoon tem para oferecer.







👌 muito bom a entrevista parabéns pelo trabalho e a partilha de conhecimento grato pelo incentivo vivaaaaaaaa aguardo os novos lançamentos do Salomão