Altino Chindele: "Uma boa banda desenhada não vive apenas do desenho, mas das ideias que transmite"
- OLINDOMAR ESTÚDIO

- 12 de jul.
- 6 min de leitura
Autor de banda desenhada, ilustrador e animador, Altino Nobre Chindele é um dos nomes da nova geração da BD angolana. Nascido no Bié, desenha desde a infância e construiu um percurso marcado por obras que abordam temas sociais, familiares e culturais. Nesta conversa, fala sobre a sua formação, o processo criativo, os desafios da banda desenhada em Angola e os projetos que prepara para o futuro.

Nasceu no Bié e costuma dizer que desenha "desde puto". Que memórias guarda desse primeiro contacto com o desenho?
Lembro-me de desenhar por puro prazer. Gostava de observar as pessoas, os animais e tudo o que me rodeava, procurando reproduzir aquilo à minha maneira. Foi aí que nasceu esta paixão: da vontade de contar histórias através do desenho.
Que influência teve a infância na forma como constrói as suas narrativas?
A infância e o ambiente onde crescemos influenciam profundamente a forma como contamos histórias. Muitas delas nascem da observação do quotidiano, do comportamento das pessoas e da descoberta de que, por trás de pequenos acontecimentos, podem existir grandes lições.
Em 2004 concluiu o Curso Médio de Artes Plásticas no Instituto Nacional de Formação Artística e Cultural, onde foi aluno do mestre Abraão Eba. Que ensinamentos permanecem consigo?
A formação com o mestre Abraão Eba deu-me uma base técnica muito sólida. Aprendi que um artista precisa de disciplina, capacidade de observação e prática constante. O desenho exige dedicação diária, independentemente do talento.
Até hoje continuo a aplicar esses princípios. Procuro estudar, observar e aprender continuamente. Um artista nunca deixa de ser aluno.
Mais tarde frequentou o Curso de Banda Desenhada ministrado por Lindomar e Olímpio de Sousa. Em que medida essa experiência mudou a sua forma de pensar a banda desenhada?
Foi um verdadeiro ponto de viragem no meu percurso. Foi aí que comecei a compreender a banda desenhada para além do desenho.
Há uma frase do mestre Olímpio de Sousa que nunca esqueci: "A banda desenhada não é só desenho, também é filosofia."
Essa ideia continua a orientar o meu trabalho. Uma boa banda desenhada precisa de transmitir uma ideia, uma mensagem e uma visão do mundo. O desenho é importante, mas deve estar sempre ao serviço da narrativa.
Como descreve a evolução do seu traço ao longo dos anos?
A evolução aconteceu naturalmente. No início preocupava-me sobretudo em desenhar cada vez melhor. Com o tempo percebi que o mais importante não era impressionar pelo desenho, mas comunicar melhor através dele.
Hoje considero que o meu traço é mais simples, mais seguro e mais funcional. Procuro que cada linha tenha um propósito dentro da história.

Publicou obras como Exemplo de um Pai, A Velha do Além, As Palavras da Velha Árvore e a série Regina. O que une estes livros?
Apesar de serem histórias diferentes, todas procuram refletir sobre o comportamento humano e a sociedade.
Exemplo de um Pai aborda um problema infelizmente presente em muitas famílias: o alcoolismo e as suas consequências na relação entre pais e filhos.
A Velha do Além fala da delinquência juvenil.
As Palavras da Velha Árvore valoriza a sabedoria, a memória e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
Já a série Regina apresenta situações do quotidiano tratadas com humor, mostrando que mesmo os acontecimentos mais simples podem dar origem a boas histórias.
No fundo, gosto que o leitor termine cada livro levando consigo uma reflexão ou uma lição.
A série Regina tornou-se uma das suas obras mais conhecidas. Como nasceu este projeto?
Regina nasceu de uma parceria muito especial com a escritora Fátima Fernandes.
As protagonistas são precisamente a Fátima e a sua filha, Regina. As histórias surgiram de episódios reais e divertidos que a autora partilhava nas redes sociais. Uma amiga em comum sugeriu que aqueles diálogos funcionariam muito bem em banda desenhada e apresentou-nos.
O maior desafio foi encontrar o equilíbrio entre a realidade e a ficção, preservando a espontaneidade das situações e transformando-as numa narrativa interessante para o público. O facto de a série ter evoluído ao longo de vários volumes permitiu aprofundar as personagens e aperfeiçoar a narrativa.
Como tem sido trabalhar em parceria com Fátima Fernandes?
Tem sido uma experiência extremamente enriquecedora. Existe muita troca de ideias e respeito pelo trabalho de cada um. Ela traz as experiências e a sensibilidade da escrita; eu procuro transformá-las em narrativa visual.
Acredito que essa colaboração foi um dos fatores que deram autenticidade à série.
O que mudou entre a primeira edição de Regina e a Edição Especial publicada em 2021?
Houve uma evolução natural. Melhorámos a narrativa, a apresentação gráfica e vários aspetos do desenho. Foi uma oportunidade para revisitar a obra com mais experiência e maturidade.
Como decorre o seu processo criativo?
Normalmente tudo começa com uma ideia ou um texto. Depois faço pesquisa, desenvolvo o argumento, crio as personagens, preparo pequenos esboços das páginas, avanço para um desenho mais elaborado e, por fim, realizo a arte-final.
Na sua opinião, o que pesa mais: o argumento ou o desenho?
Os dois são fundamentais, mas acredito que a história vem primeiro.
Um desenho excelente dificilmente salva uma narrativa fraca. Em contrapartida, uma boa história consegue envolver o leitor mesmo quando o traço é mais simples.
Também trabalha em desenhos animados publicitários. O que distingue a animação da banda desenhada?
Na animação pensamos no movimento, no tempo e no som. Na banda desenhada tudo depende da composição da página e da imaginação do leitor. São linguagens diferentes, embora partilhem muitos princípios narrativos.
Quais são hoje os maiores desafios para produzir banda desenhada em Angola?
Os principais desafios continuam a ser a edição, a distribuição e o financiamento. Apesar disso, acredito que existe muito talento e que o futuro é promissor.
Como avalia a evolução da banda desenhada angolana nas últimas duas décadas?
Vejo uma evolução muito positiva. Graças ao Festival Luanda Cartoon surgiram mais autores, mais iniciativas e uma maior diversidade de estilos.
Ainda há muito caminho por percorrer, mas hoje existe uma geração muito mais preparada.

O que falta para que a banda desenhada tenha maior reconhecimento junto do público e das instituições?
É necessário mais investimento, mais editoras, mais espaços de divulgação, programas educativos e políticas culturais que valorizem a banda desenhada como uma verdadeira forma de arte e literatura.
Que autores mais marcaram o seu percurso?
Em Angola destacaria Lindomar e Olímpio de Sousa.
A nível internacional admiro Hergé, Moebius e Osamu Tezuka, cada um pela forma como revolucionou a narrativa visual.
Qual considera ser o papel de festivais como o Luanda Cartoon?
São fundamentais. Aproximam artistas, revelam novos talentos, criam oportunidades de aprendizagem e ajudam a formar público. São espaços essenciais para o crescimento da banda desenhada em Angola.
Que conselho deixa aos jovens que pretendem seguir esta carreira?
Desenhem todos os dias, leiam muito, estudem narrativa, aceitem críticas e sejam persistentes. O talento abre portas, mas é a disciplina que constrói uma carreira.
Está a trabalhar em novos projetos?
Sim. Estou sempre envolvido em novas histórias, ilustrações e projetos de animação. Neste momento preparo o próximo volume da série, intitulado Regina Adolescente.
Que legado gostaria de deixar?
Se, daqui a muitos anos, alguém disser que começou a desenhar ou a escrever porque leu uma das minhas histórias, sentirei que o meu trabalho valeu a pena. Esse será o maior legado que poderei deixar às futuras gerações de autores de banda desenhada.
Perguntas Rápidas_________________________
Um desenhador que o inspira?
Olímpio de Sousa.
Uma banda desenhada que todos deveriam ler?
Hans – O Prisioneiro da Eternidade.
Papel ou desenho digital?
Os dois. O papel estimula a criatividade; o digital amplia as possibilidades.
Cor ou preto e branco?
Preto e branco. Valoriza o desenho.
A personagem de que mais se orgulha?
O protagonista de Exemplo de um Pai, embora nunca lhe tenha atribuído um nome.
O maior desafio da sua carreira?
Continuar a criar com qualidade e constância.
Um sonho artístico ainda por realizar?
Continuar a contar boas histórias.
Como gostaria de ser lembrado daqui a 20 anos?
Como um autor que influenciou positivamente os leitores de banda desenhada.


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