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Júlio Pinto: “O melhor cartoon é sempre o que está por vir”

  • Foto do escritor: OLINDOMAR ESTÚDIO
    OLINDOMAR ESTÚDIO
  • 26 de jul.
  • 7 min de leitura

Cartoonista, ilustrador e autor de banda desenhada, Júlio Pinto é um dos nomes mais reconhecidos das artes visuais angolanas. Com uma carreira marcada pela ilustração de mais de duas dezenas de livros e pela colaboração com alguns dos maiores escritores do país, o artista fala sobre o percurso que o levou do Estúdio Olindomar às principais editoras nacionais, reflete sobre o papel do cartoon na sociedade e partilha a visão que tem para o futuro da banda desenhada em Angola.


Júlio Pinto durante a 19ª Edição do Luanda Cartoon
Júlio Pinto durante a 19ª Edição do Luanda Cartoon

O desenho entrou na sua vida muito cedo. Que memórias guarda desse primeiro contacto com a ilustração e quando percebeu que a arte poderia tornar-se uma profissão?

Guardo memórias muito felizes. Ainda muito pequeno, com cinco ou seis anos, via o meu primo Nelson Pinto, já falecido, desenhar. Para mim, os desenhos dele eram os melhores do mundo. Comecei por copiar os seus trabalhos e foi assim que nasceu o meu gosto pelo desenho.

Naquela altura era apenas uma brincadeira. Cresci num ambiente em que desenhar era um passatempo, nunca uma profissão. Tudo mudou quando, a caminhar pelas ruas do meu bairro, encontrei algumas páginas da banda desenhada A Fronteira do Asfalto, com textos de Luandino Vieira e desenhos de Olímpio de Sousa. Fiquei completamente fascinado pela narrativa e pelo traço. Foi nesse momento, com cerca de dez ou onze anos, que decidi que queria ser desenhador profissional.



A sua formação passou pelo Estúdio Olindomar e, mais tarde, pelo Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro, em Portugal. Que ensinamentos retirou dessas experiências?

Costumo dizer que o Estúdio Olindomar foi o meu mosteiro. Cresci literalmente dentro daquele espaço e foi ali que recebi a base da minha formação artística.

Quando frequentei o Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro (ISCE), em Portugal, senti que estava mais a consolidar conhecimentos do que propriamente a descobrir algo totalmente novo. Isso só foi possível graças à preparação que recebi no Estúdio Olindomar.

Os meus mestres ensinaram-me que, na arte narrativa, não basta desenhar bem. O mais importante é comunicar de forma clara, pedagógica e responsável. Aprendi que o artista tem também um papel social e procuro transportar esse princípio para tudo o que faço.

A experiência em Portugal ajudou-me ainda a compreender melhor as dimensões sociológicas e culturais da criação artística. Viajar é essencial para quem cria. Ainda assim, considero que a minha linguagem artística é, acima de tudo, fruto da escola do Estúdio Olindomar.



Ao longo da carreira conciliou o cartoon, a ilustração, a banda desenhada e outras áreas das artes visuais. Como define hoje a sua identidade artística?

Defino-me, antes de tudo, como cartoonista.

O cartoon permitiu-me viajar por diferentes linguagens artísticas e encontrar uma forma muito própria de comunicar. Gosto de fazer humor gráfico e de analisar a sociedade através do desenho.

A ilustração editorial aproximou-me da leitura e aumentou significativamente o meu hábito de ler. A banda desenhada continua a fazer parte da minha formação e é inseparável do meu percurso. No entanto, hoje identifico-me sobretudo como cartoonista, pela liberdade que essa linguagem oferece para abordar temas de interesse público.


Cartoon do Júlio Pinto
Cartoon do Júlio Pinto


O seu trabalho integra mais de vinte livros, muitos deles de importantes escritores angolanos. O que representa ilustrar obras que fazem parte do património literário nacional?

Sinto-me profundamente privilegiado e grato.

Fazer parte do património literário nacional aumenta muito o sentido de responsabilidade. Hoje sou bastante mais exigente na escolha dos projetos que aceito ilustrar.

Ao longo dos anos li grandes textos e isso faz com que procure sempre contribuir para melhorar aquilo que ilustro. Muitas vezes ajudo escritores emergentes a aperfeiçoarem os seus textos, porque acredito que devemos contribuir para o crescimento de quem está a começar.

Também nunca esqueço o início do meu percurso, quando oferecíamos trabalhos gratuitamente para tentar publicá-los em jornais e revistas e, muitas vezes, nem assim conseguíamos espaço. Hoje trabalho com várias editoras e tenho autores à espera dos meus desenhos.

Sou igualmente muito grato aos colegas que caminharam comigo desde o princípio, especialmente Olímpio e Lindomar de Sousa, Junilson Faria, João Van-Dúnem, Altino Chindele e Manuel Tumbula. Corrigíamos os trabalhos uns dos outros e continuam a ser grandes referências para mim.



Trabalhou com autores como Manuel Rui Monteiro, Cremilda de Lima, Canguimbo Ananás e Elsa Barber. Como transforma um texto literário em imagens sem limitar a imaginação do leitor?

O leitor faz parte desse processo e considero-o o verdadeiro arte-finalista da obra.

Procuro não ilustrar exatamente aquilo que o texto descreve, mas sim aquilo que ele me faz sentir. Dessa forma, deixo espaço para que o leitor complete a experiência através da sua própria imaginação.

Acredito que o equilíbrio entre texto e imagem depende do respeito pelos limites de cada linguagem. O ilustrador não precisa de ser sempre o protagonista.



Existe alguma obra que tenha sido particularmente marcante?

Houve várias, mas destaco algumas.

A adaptação do conto O Osso, do escritor senegalês Birago Diop, foi muito especial porque resultou na minha primeira banda desenhada publicada.

Outro momento inesquecível aconteceu quando Manuel Rui Monteiro me convidou para adaptar mais de quinze dos seus textos para banda desenhada, concedendo-me metade dos direitos das obras. Foi um enorme voto de confiança.

Também tive a honra de ilustrar a capa da nona edição do projeto 11 Poemas em Novembro, uma iniciativa que Manuel Rui mantém desde 1975.

Neste momento preparo-me para ilustrar Quem Me Dera Ser Onda. Ainda assim, continuo convencido de que o melhor trabalho é sempre aquele que está por vir.



O que procura transmitir às crianças através da ilustração infantil?

Cada faixa etária exige uma abordagem diferente.

É muito gratificante saber que o nosso trabalho pode contribuir para o desenvolvimento intelectual e visual de uma criança. Existe uma enorme responsabilidade nessa missão.

Como costuma dizer um músico: "A felicidade do poeta não se encontra na carteira." Concordo plenamente.



Qual considera ser hoje o papel do cartoonista numa sociedade em constante transformação?

O cartoon tem um enorme poder de influência. Por isso, defendo que o cartoonista deve ser, acima de tudo, pedagógico.

Podemos abordar qualquer tema, mas devemos refletir sobre o impacto que o nosso trabalho terá em quem compreende a mensagem, em quem vai compreendê-la através do desenho e até em quem procura motivos para fomentar conflitos.

Ao mesmo tempo, respeito plenamente a liberdade criativa de cada artista. Um bom cartoon pode mudar muita coisa e nunca deve ser feito apenas por popularidade ou protagonismo.



Também trabalhou para instituições públicas. O que distingue esse trabalho da ilustração para livros ou jornais?

A comunicação institucional tem como principal objetivo esclarecer, orientar e aproximar os cidadãos das instituições.

Enquanto cartoonista institucional, procuro traduzir temas jurídicos ou constitucionais de forma acessível para pessoas que muitas vezes desconhecem o funcionamento dessas instituições.

Nos jornais e revistas existe normalmente uma maior liberdade criativa, embora tudo dependa da linha editorial. Se me identificar com essa linha, aceito colaborar.



Como vê a evolução da ilustração editorial em Angola?

Vivemos uma realidade ambivalente.

No passado existiam muitos jornais impressos, quase todos com espaço para cartoons e ilustrações. Hoje muitos desapareceram, dando lugar aos meios digitais.

Infelizmente, nem todos os novos órgãos de comunicação valorizam o cartoon, e considero que isso representa uma perda importante para o jornalismo e para a cultura visual.


Escritor Manuel Rui Monteiro e o Ilustrador Júlio Pinto
Escritor Manuel Rui Monteiro e o Ilustrador Júlio Pinto


Tem participado na organização do Luanda Cartoon. Qual considera ser o impacto do festival?

O Luanda Cartoon é um enorme espaço de oportunidades.

Quando um artista vê a sua obra selecionada para participar, já deve sentir-se privilegiado. A partir daí, cabe-lhe aproveitar essa oportunidade para estabelecer contactos, aprender e divulgar o seu trabalho.

Poucos festivais no mundo conseguem reunir, no mesmo espaço, grandes referências internacionais e jovens artistas emergentes. O Luanda Cartoon consegue fazê-lo. Por isso, devemos valorizá-lo, protegê-lo e fazê-lo crescer.



Que mudanças observou na banda desenhada angolana nas últimas duas décadas?

Hoje existem mais autores do que antes, mas quantidade não significa necessariamente qualidade.

Cada geração procura superar a anterior. Faço parte da terceira geração e os meus mestres já tinham essa preocupação. Talvez seja um fenómeno geracional, mas acredito que devemos manter sempre um elevado nível de exigência e evitar o conformismo artístico.



Que desafios continuam por superar?

Precisamos de continuar a procurar parceiros estratégicos e fortalecer os movimentos artísticos em todas as províncias, municípios e comunidades.

O Estado conhece as dificuldades do setor, mas os artistas também têm de fazer a sua parte, continuando a criar, a organizar-se e a reivindicar melhores condições, como mais gráficas e custos de impressão mais acessíveis.

A nossa arte é milenar e continuará a existir.



Como começa normalmente uma ilustração?

Tudo começa com uma leitura muito atenta do texto.

Leio várias vezes, com calma, até sentir que compreendo verdadeiramente a obra. Muitas vezes apresento sugestões ao autor antes de iniciar o desenho. Só começo a ilustrar quando sinto que entrei completamente no universo daquele texto.



Como consegue manter um estilo reconhecível sem deixar de experimentar?

Na verdade, quem identifica o meu estilo são as pessoas que acompanham o meu trabalho.

Eu apenas desenho da forma como aprendi e como acredito que devo desenhar. Naturalmente experimento diferentes traços e técnicas, mas quem conhece a minha produção acaba por reconhecer a minha assinatura.



Quais são hoje as suas principais referências?

Em Angola continuo profundamente influenciado por Olímpio e Lindomar de Sousa, Maniloy, Osvaldo Bala, Tché, João Van-Dúnem, Altino Chindele, Manuel Tumbula, José Teles, Zixi, Gildo Pimentel, Bocolo Daniel, Sérgio Piçarra e Hugo Fernandes.

A nível internacional admiro todos aqueles que ajudaram a consolidar a banda desenhada como uma linguagem artística universal e que abriram caminho para sonharmos mais alto.



Que projetos está atualmente a desenvolver?

Neste momento participo em mais de quatro projetos colaborativos e acredito que dois novos livros serão publicados até setembro.

Mantenho também rubricas semanais em diferentes plataformas digitais, onde publico cartoons regularmente.

Costumo dizer, em tom de brincadeira, que vivo como uma padaria: todos os dias faço e entrego novos "pães". O melhor cartoon continua a ser sempre o próximo.



Há alguma obra que ainda gostaria de ilustrar?

Neste momento sinto-me realizado, sobretudo porque tenho autorização para adaptar Quem Me Dera Ser Onda.

Mas há um sonho que continua por cumprir: ilustrar um dia o cartaz oficial do Luanda Cartoon. Quem sabe isso não aconteça na próxima edição? (Risos.)



Que conselho deixa aos jovens que sonham seguir carreira na ilustração, no cartoon ou na banda desenhada?

Esta é uma das profissões mais intelectualmente estimulantes que conheço.

Durante muitos anos trabalhei para ajudar outros artistas a crescer e nunca tive problemas em reconhecer que havia colegas melhores do que eu. Pelo contrário, aprendi muito com eles.

Os resultados que vivo hoje são fruto de mais de vinte anos de trabalho. Mesmo assim, continuo convencido de que o melhor ainda está para chegar.



Como gostaria que o seu trabalho fosse lembrado pelas próximas gerações?

Gostaria que um dia um jovem dissesse: "Escolhi esta profissão por causa de Júlio Pinto."

É exatamente isso que eu próprio digo sobre Olímpio e Lindomar de Sousa. Se conseguir inspirar novas gerações da mesma forma que eles me inspiraram, sentirei que cumpri a minha missão.


Júlio Pinto, o Artista
Júlio Pinto, o Artista

 

1 comentário


Miguel S
26 de jul.

Fico muito feliz em ver e ouvir o Cartonista com pensamentos grande 🇦🇴🙆🏻‍♂️✊🏽✅🙏🏽🤝o Grande Jp , por aquilo que ele defende e acredita principalmente da sua sensibilidade artística “ em todas áreas artísticas “

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