Nelo Tumbula: "A banda desenhada é a base de tudo o que faço"
- OLINDOMAR ESTÚDIO

- há 2 dias
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Diretor de animação, ilustrador, designer gráfico e especialista em motion design, Nelo Tumbula é um dos nomes mais relevantes da animação angolana contemporânea. Nascido em Luanda, na década de 1980, iniciou o seu percurso artístico ainda na infância e encontrou no Estúdio Olindomar a base da sua formação em banda desenhada, área que continua a influenciar todo o seu trabalho. Criador do personagem Kanito e da revista Bairro Nangol, colaborou em diversas publicações nacionais e internacionais, dirigiu filmes de animação e trabalha regularmente para marcas e produtoras em Angola, Portugal, Espanha e Moçambique. Nesta entrevista, fala sobre o seu percurso, os desafios da animação, a inteligência artificial e os projetos que prepara para o futuro.

Nasceu em Luanda, na década de 1980, e desde muito cedo demonstrou interesse pelas artes gráficas. Que memórias guarda desse primeiro contacto com o desenho e quando percebeu que queria seguir uma carreira artística?
Toda a criança nasce mergulhada num mundo de fantasia. A forma como explora esse universo depende muito do ambiente onde cresce. Eu desenho desde pequeno, comecei mesmo por desenhar na areia. Havia uma brincadeira chamada "Mamã Mandou", que hoje praticamente desapareceu. Os elogios que recebia incentivaram-me a olhar para o desenho como a minha principal diversão e, mais tarde, como um caminho de vida.
Em 2006 ingressou no Estúdio Olindomar, onde estudou Banda Desenhada com os irmãos Lindomar e Olímpio de Sousa. Que impacto essa formação teve na sua evolução artística e profissional?
Conhecer o Estúdio Olindomar foi como descobrir um mundo onde aquela fantasia em que eu vivia passou a ter fundamento. Foi aí que percebi que existiam conceitos, técnicas e uma linguagem própria para aquilo que eu fazia intuitivamente. Passei a compreender o desenho para além do simples ato de desenhar.
A banda desenhada continua a influenciar a forma como cria animações, storyboards e motion design? Que ensinamentos dessa época ainda transporta para os seus projetos atuais?
Sem dúvida. Um storyboard para cinema é praticamente uma banda desenhada. Ambos contam histórias através de desenhos organizados em sequência. A banda desenhada dispõe ainda de recursos próprios, como os balões de fala, que ajudam a transmitir emoções e intenções das personagens. Para mim, a BD continua a ser a base criativa. Antes de produzir uma campanha publicitária, uma peça de motion graphics ou um filme de animação, gosto sempre de representar tudo quadro a quadro.
Embora tenha seguido uma carreira artística, escolheu estudar Arquitetura e Urbanismo. De que forma essa formação influencia o seu trabalho?
Na verdade, acredito que a influência aconteceu no sentido inverso. Foi a banda desenhada e o desenho livre que influenciaram a minha forma de pensar a arquitetura. Eu comecei pela BD, e foi essa linguagem visual que moldou a forma como observo os espaços, as proporções e a composição.
Foi Diretor Criativo do Estúdio Olindomar numa fase importante da sua história. Como recorda esse período?
Tenho muitas saudades dessa época. Foi um período de descobertas para toda a equipa, em que desenvolvemos projetos de banda desenhada e animação que marcaram o nosso percurso.
O filme "Minguito Visita a Avó" continua a ser um dos trabalhos mais marcantes. Criámos toda a história de raiz, enfrentámos o desafio técnico de animar vários personagens a dançarem kuduro e realizámos uma extensa pesquisa sobre a realidade da província do Cunene, onde termina a narrativa. Gostaríamos até de ter feito trabalho de campo naquela região, mas não foi possível por falta de recursos. No final, acabámos por produzir o filme de animação mais longo realizado em Angola até então.
É o criador do personagem Kanito e da revista Bairro Nangol. Como nasceram esses projetos?
Criei o Kanito há cerca de 17 anos, mas publiquei mais obras ligadas ao Bairro Nangol, um bairro fictício que muitos associam ao Sambizanga, onde nasci. A ideia era criar um espaço onde pudesse retratar o quotidiano angolano, abordar problemas reais, fazer críticas sociais e incentivar a reflexão. Curiosamente, nada naquele bairro foi desenhado ao acaso. Desde as casas até às ruas, tudo foi planeado. Cheguei mesmo a desenhar um mapa completo do bairro.

Também colaborou em publicações como Kalibradinhos, Cabetula e BD LP. Como avalia o desenvolvimento da banda desenhada angolana?
Ainda precisamos de um mercado mais ativo. Precisamos de mais publicações, de bons argumentistas, embora existam muitas obras literárias nacionais que poderiam ser adaptadas para banda desenhada. Precisamos também de mais editoras e gráficas com preços compatíveis com a realidade do mercado angolano.
Ao longo da carreira passou da ilustração para a animação. Como aconteceu essa transição?
O primeiro personagem que animei foi o Cabetula, quando ainda era aluno no Estúdio Olindomar. Foi um desafio que me foi confiado pelo mestre Olímpio de Sousa para uma campanha da Unitel.
Na altura perguntei-me por que razão ele confiava logo a mim a animação da personagem principal. Felizmente, consegui corresponder às expectativas. Foi missão dada, missão cumprida.
Dirigiu filmes como Dudu, o Menino que Queria Ver o Mar e Minguito Visita a Avó. O que o atrai na animação destinada ao público infantil?
A animação infantil tem a capacidade de educar, divertir e inspirar ao mesmo tempo. Trabalhar para crianças exige responsabilidade, porque sabemos que as histórias, as personagens e os valores transmitidos podem influenciar a forma como elas veem o mundo.
Participou na ilustração do documentário português A Revolução dos Cravos e co-realizou o filme animado Caçadoras Seriais, com Coréon Dú. O que essas experiências internacionais acrescentaram ao seu percurso?
Cada desafio é uma oportunidade de crescimento. Esses dois projetos tiveram dimensão internacional e contribuíram muito para a minha evolução profissional.
No documentário sobre a Revolução dos Cravos trabalhei com o realizador Paulo Henriques e com entidades ligadas diretamente ao 25 de Abril. Foi uma experiência de grande aprendizagem. Descobri, por exemplo, que muitos portugueses saíram às ruas de Lisboa a defender a independência das colónias.
O storyboard é hoje uma das áreas em que mais se destaca. Qual é a sua importância na produção audiovisual?
O storyboard permite tornar o filme visível antes mesmo de ser produzido. Ajuda a evitar erros narrativos, facilita a organização da produção e reduz custos.
Costumo dizer que ter um storyboard é como ter um mapa nas mãos em pleno deserto, no oceano ou numa floresta. Ele mostra onde estamos, para onde queremos ir e quais os melhores caminhos para lá chegar.
Trabalha regularmente para marcas em Angola, Portugal, Espanha e Moçambique. Existem diferenças entre esses mercados?
Como profissional, cada cliente é um cliente. Uns são mais exigentes do que outros e cada mercado possui características próprias. O mercado espanhol, por exemplo, é muito diferente do angolano. Isso exige mais pesquisa, porque estamos a comunicar com públicos distintos e em ambientes competitivos diferentes.
Descobriu a paixão pelo motion graphics através da formação com Carlos Guimarães, na escola O Ilusionista. O que mais o fascinou nesta área?
No motion graphics, muitas vezes não existe uma personagem a falar diretamente com o público. Uma das maiores aprendizagens que tive com o mestre Carlos Guimarães foi desenvolver sensibilidade para transmitir emoções apenas através do movimento dos elementos gráficos.
A inteligência artificial está a transformar profundamente as indústrias criativas. Como encara esta nova realidade?
É uma questão muito pertinente e com respostas bastante controversas.
Tal como aconteceu na Revolução Industrial, a inteligência artificial está a substituir determinadas tarefas e quem não acompanhar essa evolução acabará por sentir essa concorrência.
Hoje, pessoas sem formação artística conseguem produzir imagens apenas com um bom prompt e até comercializá-las como arte. Pessoalmente, não considero que isso seja, por si só, uma obra de arte.
A inteligência artificial é uma realidade incontornável e pode ser uma grande aliada do processo criativo. No entanto, acredito que o resultado produzido exclusivamente por IA não deve ser encarado como uma verdadeira obra de arte.
Que competências considera essenciais para quem pretende seguir uma carreira em animação, motion design ou direção criativa?
Em primeiro lugar, é preciso saber exatamente o que se pretende fazer. Depois vem a pesquisa.
Vivemos em áreas em constante evolução. Todos os dias surgem novas tendências, novas ferramentas e novas linguagens. Sem pesquisa, rapidamente ficamos para trás.
Como avalia o estado da indústria da animação em Angola?
Hoje acredito que as condições devem partir de nós próprios. Precisamos criar as oportunidades e desenvolver um verdadeiro mercado de animação em Angola.
Depois de trabalhar em publicidade, cinema, televisão, banda desenhada e ilustração, ainda existem desafios por concretizar?
Sem dúvida. No cinema e na televisão ainda há muito por explorar.
Continuo a sonhar com a realização de uma longa-metragem de animação e de uma série de animação para televisão. É um objetivo pelo qual continuo a trabalhar todos os dias.
Em que projetos está atualmente envolvido?
Neste momento estou a desenvolver alguns projetos de animação para terceiros, sobre os quais ainda não posso revelar detalhes.
Paralelamente, continuo a trabalhar em projetos pessoais, entre eles o filme Kanito na Terra da Palanca Negra e a banda desenhada ASES.
Se pudesse regressar ao início da sua carreira e falar com o jovem Nelo Tumbula que entrou no Estúdio Olindomar em 2006, que conselho lhe daria?
Diria para seguir exatamente o mesmo caminho, mas acrescentando algumas coisas: pesquisar mais, ser mais ousado, estudar 3D, efeitos visuais (VFX), dominar cerca de 90% do After Effects, aprender inglês e procurar rodear-se de boas pessoas.
Para terminar, como gostaria que o seu contributo para a animação, a banda desenhada e a ilustração angolana fosse lembrado?
Gostaria que o meu trabalho se tornasse uma referência de orgulho e de pesquisa para as futuras gerações de artistas angolanos.


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